31.1.16

OPINIÃO: A morte do rio Tejo

Na Ibéria existem poucos rios com esta dimensão, nasce lá bem no alto da serra de Albarracín a 1600 metros de altitude, no interior de Espanha, brotando da sua nascente água pura e cristalina.
Quando o seu leito inicia a descida pelas encostas, vales e planícies destes dois países, percorrendo cerca de 1007 km, até desaguar em Lisboa, estamos longe de imaginar que em pleno século XXI se possa matar assim um rio!  O segundo maior rio da península Ibérica, a seguir ao Ebro (Espanha).
São 1007 km de atentados ambientais que este curso de água sofre, tanto de um lado da fronteira como do outro, os criminosos continuam impunes, como sempre, em nome de um desenvolvimento, dizem!
Ao longo do seu percurso foram sendo construídas várias obras arquitetónicas (barragens, paredões, transvases), a que se juntam o vazamento de lixos de toda a natureza, esgotos de empresas e particulares (muitos sem qualquer tratamento), refrigeração de centrais nucleares e centrais termo elétricas, que vieram alterar seu normal funcionamento nestes últimos 50/60 anos de vida.
Como é possível em menos de meio século, 50 anos, o homem ter destruído o que a natureza levou milhares de anos a construir, como é possível? Onde outrora corria água cristalina e havia peixes em abundância, que dinamizava um sector importante nas economias das comunidades ribeirinhas, hoje temos um rio morto, sem vida, um autêntico esgoto a céu aberto, lançando um cheiro nauseabundo das suas águas escuras com espuma esbranquiçada.
Em Portugal o problema tem-se vindo a agravar, mas as autoridades responsáveis, mesmo sabendo quem são os autores destes crimes ambientais (tal com refere um recente relatório ambiental), nada fazem, dizem que não tem meios suficientes – declarações do próprio Presidente da Agência Portuguesa de Ambiente, na comissão parlamentar, por estes dias.
No plano regional, verificamos que foi constituída pelo Ministério do Ambiente, uma Comissão de Acompanhamento sobre a poluição no Tejo, que terá por missão avaliar e diagnosticar as situações com impacto direto na qualidade da água do rio Tejo e seus afluentes, fazendo parte os representantes da Agência Portuguesa do Ambiente, da Inspeção-geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo e do Centro, as Comissões Intermunicipais da Lezíria do Tejo, Médio Tejo, Beira-Baixa, e a GNR/SEPNA.

Parece-nos bem que seja constituída essa tal comissão de acompanhamento, só lamentamos que não existem representantes do Alentejo nessa mesma entidade, ora vejamos, se no concelho de Nisa o Tejo tem um percurso de 43 Km e no concelho de Gavião mais 15 km, são portanto cerca de 58 km (21%) de rio sub-representados nesta comissão, não foram convidados?
Sabemos que esta terça-feira, a presidente da Câmara de Nisa, estará presente, numa audição na comissão parlamentar de ambiente, em Lisboa, a qual de forma proactiva, como é seu hábito, não deixará certamente por mãos alheias, esta problemática situação que aflige toda esta comunidade ribeirinha.
Mas não ouvimos a posição da Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo (CIMAA), apesar de ter havido esta semana, em Portalegre, uma reunião com o Secretário de Estado do Ambiente Carlos Martins.
É urgente cumprir e fazer cumprir toda a legislação, acordos e tratados que existem para salvar o nosso rio.
Assinem a petição que está a correr por aqui:
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT79516  - (Petição Contra a Poluição do Rio Tejo e seus afluentes).
Em nota de rodapé, só para recordar que em 2010, assinei um texto para este mesmo espaço com o título “Quem salva o Tejo?”, entretanto já passaram 5 anos, e nada.
Todos somos poucos, não podemos deixar morrer o Tejo!
JOSÉ LEANDRO LOPES SEMEDO